ENSAIO
Vocabulário de silêncios: as palavras e o luto
Texto: Ana Alice de C. Soares
ENSAIO
"Não! Não conte para ninguém, porque se a gente contar vira verdade!
(. . .) O luto é uma forma cruel de aprendizado. Você aprende como ele pode ser pouco suave, raivoso.
(. . .) Aprende-se quanto do luto tem a ver com palavras, com a derrota das palavras e com a busca das palavras."
— Chimamanda Ngozi Adichie, Notas sobre o luto (2021)
Lembro-me de como os mais velhos corrigiam a nossa fala na infância, especialmente quando tentávamos nomear certos assuntos. Quando alguém recebia o diagnóstico de câncer, por exemplo, a palavra não era dita, e ouvia-se apenas: “Fulano está com aquela doença.” Logo aparecia uma das crianças para perguntar o que era “aquela doença”, mas o assunto era desviado. O mesmo ocorria com a morte: mesmo quando os médicos informavam a gravidade do caso de algum conhecido, era quase proibido pensar na hipótese de que o pior se concretizaria. O veto também se estendia ao recordar situações trágicas de acidentes que ocasionaram ou não a morte, e a uma longa lista de palavras silenciosas.
Pensando sobre a forma como as pessoas evitam abordar situações inevitáveis, é curioso como se tece a nossa relação com as palavras e a possibilidade de dizer sobre algo. Se não podemos ao menos nomear uma doença pelo seu próprio nome, o que poderemos, então, dizer? O que nos sobra diante do desamparo?
O livro O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion, narra a história pessoal de seu luto após perder o marido abruptamente. Ao longo da obra, a autora apega-se à premissa de que “informação é controle” e, a partir dessa convicção, que parece martelar em sua mente o tempo todo, entrega-se a uma busca incansável por respostas ao presenciar as complicações da doença grave de sua filha. Didion acreditava que, se estivesse munida de todos os termos técnicos e protocolos médicos, estaria salva de perder mais um membro de sua família. Porém, só observa essa tentativa de controle posteriormente, e se frustra ao perceber que nenhum conhecimento a livra do inevitável, sobretudo da perda.
Recorro a esse trecho do livro de Didion para pensar sobre as tentativas de conter o imprevisível. Algumas pessoas sentem quase repulsa pelas palavras que remetem a algo ruim (mesmo que, em algum momento, elas lhes escapem). Outras se lambuzam delas, mergulham, tentam esgotá-las. Quais são os efeitos de dizer, de nomear? Quais são os de não dizer e, mais do que não dizer, calar, tentar prender o ar como se aqueles minutos em suspenso estendessem algo?
Talvez seja por isso que o silêncio diante daquilo que tememos nunca seja apenas silêncio. Há nele uma tentativa de adiar, de não confirmar, de manter as coisas suspensas por mais alguns instantes. Não dizer “câncer”, “morte" ou “acabou” pode parecer uma forma de preservar alguma coisa, como se as palavras tivessem o poder de fazer acontecer aquilo que apenas nomeiam. Mas aquilo que não é dito não deixa de existir. Às vezes, apenas muda de lugar: permanece no corpo, nos gestos, nos desvios da conversa, na maneira como aprendemos a olhar para determinadas palavras.
O luto parece existir justamente nesse intervalo: entre aquilo que queremos nomear e aquilo que nenhuma palavra consegue alcançar inteiramente. Há palavras demais e palavras de menos. Há quem fuja delas e quem se agarre a elas, quem prefira “aquela doença” e quem precise saber o nome de cada sintoma, de cada procedimento, de cada possibilidade. Talvez sejam movimentos diferentes diante de uma mesma tentativa: fazer com que aquilo que acontece possa, de alguma maneira, caber em nós.
Como escreve Chimamanda, cuja reflexão abre este ensaio: "Aprende-se quanto do luto tem a ver com palavras, com a derrota das palavras e com a busca das palavras."