A hospitalidade da ausência
Texto: Ana Alice de C. Soares
Texto: Ana Alice de C. Soares
não
as palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?
nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que se passa com a alma é que não se vê
o que se passa com a mente é que não se vê
— Nesta Noite, Neste Mundo, Alejandra Pizarnik
A ausência entra sem bater. É uma hóspede que se instala com a inconveniência das visitas espaçosas. Senta ao seu lado no sofá. Deita ao seu lado na cama. Permanece do café da manhã ao jantar, tornando as refeições, às vezes, um exercício indigesto. Sob sua sombra, o verde mais vivo do brócolis perde a cor e passa ao verde-musgo, com o gosto de que nada mais será como antes, resta apenas esse vegetal novo, de textura e sabor ainda indecifráveis.
A hóspede invade até a letra das músicas: muda a composição, sufoca as notas, desafina o ambiente. E, quando parece dar trégua, basta resvalar em um rastro ordinário para que ela se aproxime outra vez, encarando sem nem piscar. Com essa chegada abrupta, resta render-se à sua companhia para compreender quem é essa nova inquilina que não irrompeu para ir embora cedo, ao menos não antes de ser vista.
Mas como abrigar aquilo que recusamos? Como tatear as rachaduras?
Dar voz à ausência é como separar os pertences de quem partiu. É ter que revisitar memórias para forçar a língua a habitar o tempo verbal da não continuidade. As palavras custam a sair da boca: vêm trêmulas, ásperas, porque a palavra real nunca é suave. No início, quando a falta transborda feito água que alaga a casa e mofa as estruturas de quem fica, não há vocabulário, forma ou paladar. É apenas devastação silenciosa.
Depois, algo começa a ser timidamente articulado, ainda que ocorram recuos frequentes para o silêncio, este refúgio, às vezes, tão mais confortável no desconforto. Nessas brechas, entre a irritação, o choro e o travo da culpa, um "seminovo" começa a ser desenhado. Não uma recomposição ilesa, mas uma invenção com rasuras.
"A falta presente no luto é a mesma que sustenta o desejo, e tanto um quanto o outro dão ao sujeito as coordenadas pelas quais ele se orienta ante as peripécias da vida."
— Antonio Quinet, em Extravios do Desejo: depressão e melancolia
A hospitalidade da ausência implica sustentar a nudez do desamparo sem a pressa anestésica de estancar a sangria. Como no apontamento de Quinet, é justamente a travessia para o dia seguinte a essa recepção: o instante em que a falta, uma vez instalada no centro da experiência, desmonta os antigos mapas de navegação. Quando as coordenadas ruem, dissolve-se também a promessa ingênua de uma cura que devolva o sujeito ao que acreditava ser seu estado intacto.
O que se reorganiza a partir desse colapso é feito de passos hesitantes sobre um chão que mudou de textura. Conforme a rotina ensaia seus novos rumos, narrar a vida a partir do luto deixa de ser um peso imóvel para restituir algum pulso ao que parecia esvaziado.