Anatomia do luto
Poema: Ana Alice C. Soares
Poema: Ana Alice C. Soares
Perder.
Não há um tempo exato
para
elaborar um luto.
Não há um tempo.
Quando uma perda se inaugura,
inauguram-se também
outras tantas perdas.
Morre um,
que era talvez marido de alguém,
talvez pai,
era filho de alguém.
Morre muita gente em uma gente
só.
E abrem-se as memórias, os locais:
a casa, o apartamento ou qualquer outro lugar
onde residia.
Qual o gosto de uma saudade interminável?
Quais palavras podem digerir um fim
que não é exatamente um fim?
há muita gente
em uma gente
só.
Não há manual ou qualquer outra coisa para remediar
o luto.
Talvez seja possível encontrar
um contorno diferente
e não uma solução,
para o som ensurdecedor da perda.
Como habitar o que restou?
A escuta diante da perda: Vivenciar a perda de alguém implica lidar com a sensação de perder o próprio chão. Na clínica psicanalítica, o processo de luto não busca uma solução rápida ou o apagamento da dor, mas permite construir uma relação possível com aquilo que permanece após a perda.