Anatomia do luto: perdas em poema
Poema: Ana Alice C. Soares
Poema: Ana Alice C. Soares
Perder.
Não há um tempo exato
para
elaborar um luto.
Não há um tempo.
Quando uma perda se inaugura,
inauguram-se também
outras tantas perdas.
Morre um,
que era talvez marido de alguém,
talvez pai,
era filho de alguém.
Morre muita gente em uma gente
só.
E abrem-se as memórias, os locais:
a casa, o apartamento ou qualquer outro lugar
onde residia.
Então, vêm à memória
a planta de que gostava,
os hábitos,
as refeições que amava,
as que detestava.
O que fazia aos domingos?
Se exercitava?
Por que gostava daquela cor e não de outra?
Qual o gosto de uma saudade interminável?
Quais palavras podem digerir um fim
que não é exatamente um fim?
há muita gente
em uma gente
só.
Não há manual ou qualquer outra coisa para remediar
o luto.
Talvez o que possa dar um contorno diferente
e não uma solução,
ao som ensurdecedor da perda,
seja a criatividade.
Quais as possibilidades
com o rio que secou?
A escuta diante da perda: Vivenciar a perda de alguém implica lidar com a sensação de perder o próprio chão e do lugar que se ocupava na vida daquela pessoa. Na clínica psicanalítica, o processo de luto não busca uma solução rápida ou o apagamento da dor, mas sim oferecer um contorno possível para o desamparo. Assim como as ações de "revitalização" a longo prazo em um rio que secou, a escuta analítica permite criar novos caminhos a partir do que restou.